Da humilhação ao Doutorado

Da humilhação ao Doutorado

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Eu fui fruto de um duplo adultério, um plano de aborto foi gerado por isto e muito medo das consequências. Minha mãe e eu fomos vítimas de violência doméstica durante os nove meses de gestação. Quando nasci, fiquei três dias sem encostar nela, pois ela estava com uma espécie de urticária, quando voltamos para a nossa casa, fomos surpreendidas por um arrombamento desta, com o forte barulho, assustei-me muito e desmaiei, minha tia que cuidava de nós tirou-me do berço desmaiada e colocou-me debaixo do chuveiro frio para eu reagir.

Comecei a ter crises que médico algum conseguia descobrir do que se tratava, até que com 11 meses, um desses revelou que se tratava de síndrome traumática por causa das violências sofridas. O homem que eu acreditava ser meu pai faleceu quando eu tinha três anos de idade, aos seis anos, descobri que ele não era o meu pai biológico, então conheci o meu verdadeiro pai que não pôde me assumir como filha por conta de sua família e filhos, eles não sabiam da minha existência.

Cresci em um bairro periférico na minha cidade, onde a maioria dos usuários de droga moravam, então quando eu dizia que era de tal bairro, as pessoas me olhavam torto e as mães das minhas colegas proibiam-nas de andar comigo e de visitar a minha casa. O tempo foi passando e eu me tornei uma jovem deprimida, chorava todos os dias, sobretudo na escola, e as pessoas costumavam me chamar de “chata”, “insuportável”, então quase não tinha amigos.

Eu buscava a figura do meu pai nos rapazes, então as relações nunca davam certo, por causa desta carência, costumava projetá-lo nas pessoas, quando não me apaixonava somente por aqueles que também me rejeitavam. Vivia uma espécie de círculo vicioso, onde eu revivia a rejeição que eu acreditava ter passado pelo meu pai. Decidi que iria estudar, fui morar na capital do meu estado, Salvador, e comecei a vender doces na faculdade para poder pagar as contas, além de ter um bazar de roupas de segunda mão.

Na faculdade, ocorreu outra espécie de assédio moral, o doce mais vendido era o alfajor, então este era o meu apelido na sala, os meus colegas pirraçavam sem dó, haja vista que era uma turma em que a maioria tinha condições financeiras e advinham de escolas particulares, ou seja, a minha realidade era totalmente diferente.

Entretanto, eu não desisti, consegui um estágio remunerado e uma bolsa de incentivo. Neste curso, farmácia, eu tinha muita dificuldade, pois nunca gostei de cálculos, então percebi que deveria seguir as letras, então iniciei minha jornada em outra faculdade. Foi a melhor coisa que fiz, estudar letras, continuei trabalhando com vendas de roupas e deixei os doces, passei a ser conhecida como “a menina das calças”, pois eu vendia calças de todas as cores e muito boas também. Eu adorava vender roupas, e com este recurso financeiro realizei meu sonho de sair do Brasil pela primeira vez, além de me manter em Salvador.

No último ano da faculdade de Letras, comecei a estagiar no centro de escrita científica, onde cresci muito, tanto como pessoa, quanto como profissional. Tive cursos de escrita com as melhores professoras da instituição, também atuei na editora da universidade como voluntária e adquiri bastante experiências. Neste período, estava escrevendo o meu primeiro livro e também o meu trabalho de conclusão de curso. Paralelamente, auxiliava os meus colegas no centro de escrita em seus trabalhos de conclusão de curso, também.

Ainda com o desafio da depressão, continuei perseverando até me formar. Deus sempre colocava pessoas em meu caminho para me ajudar, e também aquelas para me desafiarem. Eu não entendia o porquê, muitas vezes, mas certamente foi para me tornar mais forte, pois sempre fui muito frágil, ainda que forte em outras circunstâncias.

Depois de vivenciar muitas lutas com relação a minha família paterna, o meu pai e eu nos reaproximamos, pois ele precisou se hospedar na minha casa por questões de doença, então ele pôde conhecer a minha essência e a reconheceu. Depois de fazermos as pazes, painho passou a me ajudar financeiramente, a enviar mensagens de carinho e me disse uma frase que jamais esquecerei: “eu nunca te reneguei, filha, você é o maior presente que Deus me deu”.

Após me formar na faculdade de letras e finalizar a especialização, a minha querida chefe convidou-me para ser professora da instituição, a qual é considerada como uma das melhores da Bahia. Neste período, a dar palestras em outras faculdades e a ser reconhecida pelo meu trabalho com a escrita. Houve um concurso de melhor trabalho de conclusão de curso em 2018, no qual me inscrevi e ganhei o prêmio em primeiro lugar. Comecei a acreditar que Deus tinha planos para mim. Embora ainda sofresse de depressão e tivesse tentado suicídio algumas vezes, continuei perseverando. Neste mesmo ano, lancei o meu primeiro livro “Caderninho e outros contos” na semana da cultura da minha cidade, Conceição do Coité, era o evento mais importante da cidade. Fui convidada para dar entrevista, então recebi muitas mensagens e carinho dos meus conterrâneos.

No ano seguinte, decidi abrir uma editora, muitas pessoas zombaram de mim, chamando-me de “louca e sonhadora”, mas pesquisei, estudei e abri a editora, publicando o meu segundo livro, que foi meu TCC “Quarto de despejo: autoficção e o mito do escritor”, que conta a história de Carolina de Jesus, ex catadora de papel. Nesse mesmo ano, fui a São Paulo, no museu Afro, conhecer os escritos originais dessa escritora. Mais uma vez, pude sentir que Deus tinha planos para mim.

Comecei a divulgar a editora, e escritores de Minas Gerais, São Paulo, Brasília, Salvador, Curitiba... começaram a me contratar para publicar seus livros. Então, as mesmas pessoas que me criticaram, passaram a dizer “Deus puxa seu saco, você está sendo honrada”. Decidi que faria seleção para mestrado, fiz e passei em três seleções. Nesta época, estava trabalhando demasiadamente, por isto sofri uma crise terrível, na qual perdi totalmente a razão, não conseguia raciocinar e parecia que eu estava dentro de uma bolha. Foi triste.

Naquela semana, várias pessoas da igreja começaram a orar por mim e a minha família me levou para o psiquiatra, então fui medicada e muito cuidada pelos meus familiares. Parecia que eu jamais voltaria ao normal, e que ficaria como uma criança, meus irmãos e minha mãe choravam copiosamente. Todavia, Deus enviou os seus anjos, inclusive em forma de pessoas, e me salvou mais uma vez. Tomei os medicamentos certinho, ia ao psicólogo, continuava a fazer as minhas orações, até que consegui me reerguer

Em 2020, fui convidada para ensinar em outra faculdade, onde comecei com uma disciplina, no primeiro semestre. No segundo semestre, já estava com duas disciplinas, no terceiro semestre, com as duas e na organização de um projeto de escrita e leitura com mais dois colegas. Tornei-me autônoma de mim mesma novamente, fui morar sozinha em um apartamento no centro da cidade, comprei meu primeiro carro, continuei editando novos livros, lancei a versão inglesa do meu segundo livro, um terceiro livro sobre depressão e universidade na modernidade líquida, e o meu primeiro romance “O piano e a noite”.

Para completar a boa obra, Deus me concedeu o quarto lugar no Doutorado em Portugal, um lar na residência universitária da instituição e as faculdades manterem o meu trabalho de forma remota, para fazer o que mais amo e nasci para fazer: ensinar. Quando decidi que iria morar em Portugal, algumas pessoas disseram que seria um desafio muito grande, que eu poderia não conseguir me manter, já que a moeda europeia está a cada dia mais alta, entre outras coisas, mas eu sentia dentro de mim que o melhor a fazer era isto mesmo, estudar fora do Brasil e iniciar uma carreira internacional.

Uma vez, eu recebi uma palavra numa pequena igreja que dizia o seguinte: “você pisará em terras que nunca imaginou pisar em toda a sua vida, através dos seus livros, e estará ao lado de pessoas grandes”. Eu guardei essa mensagem em meu coração e mantive a certeza de que Deus estaria comigo onde eu estivesse. Assim começou a preparação para a minha ida a Portugal, as minhas queridas amigas me apoiaram de forma incrível, houve uma mobilização que eu ganhei absolutamente tudo que precisava, desde a mala até as passagens e o aluguel do mês. Em menos de 15 dias, eu já estava sobrevoando o Brasil em direção ao continente europeu.

O medo de estar em outro país era inexistente dentro de mim, eu confiava tanto na providência de Deus que eu só sabia sentir gratidão. O primeiro mês já foi de sucesso, recebi uma ligação de uma escritora brasileira que vivia em Portugal há mais de 40 anos, ela me propunha publicar um livro nos dois países. Iniciou-se uma nova jornada em que a PG Editorial se tornou internacionalmente conhecida. Com seis meses em Portugal, já estávamos presentes em quatro continentes: América do Sul, Europa, África e Ásia. Aqui conjugo em primeira pessoa do plural, porque a PG Editorial é uma família, nós temos dois anos e nove meses de existência, ainda um bebê, mas que tem alçado voos extraordinários.

Sendo assim, as batalhas que vivenciei moldaram o meu caráter, fortaleceram os meus lombos e elaboraram os degraus da escadaria que continuo a subir, pois o céu é o limite. O segredo do sucesso é marchar em direção ao alvo, ao cumprimento do propósito de vida. A minha história convida-lhe a perseverar em direção àquilo que faz o seu coração bater mais forte, a seguir a sua mais profunda intuição, a confiar no que você acredita e a não temer as adversidades, pois absolutamente nada ocorre sem um porquê. Tudo tem uma razão de ser, os desafios são escola da vida para nos preparar ao que nos aguarda desde a fundação do mundo. Avante!

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Deus continue te abençoando. :)
Um abraço...

Priscila Goes
CEO PG Editorial | pgeditorial.com