A professorinha

A professorinha

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Era um bebê lindo. Bochechas rosadas. O cabelo lisinho, mal segurava o laço. Toda peludinha. Uma graça de menina.

– Nasceu, nasceu! É uma menina linda. É a tua cara! – exclamou a sua irmã.

Ela tinha 18 anos quando se casou.
Todavia, seu sonho não era esse, seus planos sempre foram voar para longe, morar em São Paulo, capital, com sua tia. Sempre teve uma inteligência fora do comum.
Alfabetizou, aos 14 anos, toda a meninada da comunidade. Laginha. Onde nasceu. Fez história. A professorinha. Saía de jegue para estudar na cidade. Mesmo com tantas desventuras não desistiu.
Já casada, ajudou o seu sogro a erguer sua própria casa, ele era pedreiro, com muita labuta, conseguiram. Ela saía pra vender lingerie para ajudar nas despesas de casa, a noite estudava, muito embora, seu marido ciumento, a proibia. Voltava, todos os dias, escoltada por ele, na maioria das vezes embaixo de pancada.
Suas colegas diziam:

– Não chore. Você consegue, mulher.

De fato. Formou-se. Foi morar com seu marido em Salvador, onde viveu muitas
aventuras e aprendeu sobre a vida. Seu desejo? Ser mãe.
– Pensei que era qualquer coisa, menos menino. – dizia.
Mas Deus havia lhe dado essa dádiva. Duas moças e um rapaz.
Trabalhou em escolas e numa loja de materiais de construção, foi assim que construiu uma casa em águas claras, bairro em que vivia. Ajudou sua família. Fez muitas amizades, das quais até hoje sente saudades. Mas precisou deixar tudo para trás. Sua filha, traumatizada ao conviver com seu sofrimento dentro de casa, foi o motivo.
Certo dia, daqueles que a bebê amanhecia queimando de febre e roxa, foi ao médico levá-la, que lhe disse:

– Mãe, sua filha presencia cenas de violência?
– Sim, doutor. Venho sendo vítima de violência doméstica desde quando ela estava na barriga.
– Foi o que pensei. Possivelmente, a sua filha está tendo febre emocional e o que trará a melhora é a senhora tirá-la desse ambiente tempestuoso ou sua filha vai morrer, sinto muito. – disse o médico.


Sem pestanejar, ela arrumou as roupas da menina. Para que seu marido não
desconfiasse, fugiu com a roupa do corpo para sua cidade natal, em busca de paz.
Os dias foram passando e os anos também. A moça conseguiu um emprego de
professora pela prefeitura, voltou a ensinar. Ensinar era seu dom, nascera para isso, ela nasceu professora. Para garantir seu futuro, fez o concurso e passou.
A vida começou a melhorar. Os filhos cresceram e vieram os netos. Aos cinquenta e
seis anos formou-se Pedagoga. Em três anos até aposentar-se, fez o mais belo trabalho na Educação Infantil, na creche da cidade. Fechando com chave de ouro o seu ciclo na Educação, deixando como legado: trabalho bem feito, é trabalho feito com amor.


Conto escrito em homenagem a minha amada mãe:

Salvador, 1990
Filhos, obedeçam a seus pais no Senhor, porque isso é o certo a fazer. “Honre seu pai e sua mãe.” Esse é o primeiro mandamento com promessa. Se honrar pai e mãe, “tudo lhe irá bem e terá vida longa na terra”. - Efésios 6:1-3 NVT

Este conto encontra-se também no meu primeiro livro publicado:

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Caderninho e outros contos – PG Editorial
Caderninho e outros contos revelam o início da minha escrita. São linhas contornadas de emoção, dado o turbilhão de sentimentos que nos vocábulos depositei. Escrevi na passagem para os 27 anos, enquanto trilhava um caminho crucial. Esbocei-me nas entrelinhas, encorajada por um amigo que ora foi ment…